domingo, 29 de novembro de 2015

Senhora de José de Alencar




A Senhora de José de Alencar

José de Alencar nasceu em 1 de Maio de 1829, em Messejana, Ceara. Filho de José Martiniano de Alencar e de D. Ana Josefina de Alencar. Formou-se em direito e chegou a exercer a profissão. Iniciou a atividade literária no Correio Mercantil e no Diário do Rio de Janeiro.
O romance “Senhora” foi uma das ultimas obras dele. Foi publicada em 1875 em forma de folhetim. Narra-se a história de Aurélia Camargo, uma jovem, pobre, que um dia recebe uma herança do avô e tem uma ascensão social. E com isso passa a ser a donzela mais cortejada do Rio de Janeiro.

Personagens:

AURELIA - Mulher diferente da sua época, que ficou órfã aos 18 anos, e recebe a alcunha de Senhora por ser da Alta Sociedade e possuir personalidade forte, além da sua beleza.Apaixonada por Fernando Seixas, que tem sua atmosfera amorosa desiludida, tornando ela uma mulher fria e vingativa, porém não consegue esconder seu verdadeiro sentimento por Fernando Seixas.

FERNANDO SEIXAS – Ele se mostra de duas formas na obra: Seixas e Fernando. Seixas é um jovem que frequenta as festas da alta sociedade e Fernando era elegante, educado e extremamente inteligente. Era um moço extremamente jovem e carinhoso, sabia perfeitamente como tratar as irmãs (que o bajulavam a toda hora e brigavam ciumentas por ele). Procurava casamento com uma moça rica pra melhorar sua condição. A partir do relacionamento com Aurélia, ele muda sua personalidade ao longo do tempo.

LEMOS - Tio de Aurélia, Um velho bonachão e negociante, que foi o intermediário da relação do dote entre Aurélia e Seixas; Pode representar o burguês especulador nas transações.

ADELAIDE - mulher rica e poderosa, com o dote do seu pai tira Seixas de Aurélia, mas seu verdadeiro amor era Torquato.

LISIA SOARES - pessoa, amiga, íntima de Aurélia.

ALFREDO MOREIRA E AMARALZINHA - pessoas elegantes.

D.FIRMINA - viúva que se tornou tutora de Aurélia após a morte da mãe,  e a acompanhava na Sociedade.

D. EMILIA - mãe de Aurélia que casou com Pedro Camargo, abandonando sua família.

PEDRO CAMARGO - pai de Aurélia e filho do fazendeiro Lourenço Camargo, de quem Aurélia herdou sua fortuna.

TORQUATO - moço simples e humilde que ajudou Aurélia em momentos difíceis.

EDUARDO ABREU - moço bom que foi pretendente de Aurélia e que custeou as despesas do enterro da mãe dela.

Senhora: status na nova sociedade.

Ascensão social é uma coisa recorrente na obra. Vemos a partir de dois personagens: Aurélia, a que já teve sua ascensão e Fernando Seixas, o que quer ascender socialmente.
As personagens femininas das obras de Jose de Alencar comprovam sua sensibilidade em criar seres marcantes como Aurélia, por exemplo. Aurélia é uma mulher dividida entre o amor e o ódio, entre o desejo de vingar-se e o de amar plenamente. O autor cria uma personagem que confronta as qualidades convencionais de uma heroína romântica.
Essa personagem é ao mesmo tempo “fada encantada” e “ninfa das chamas, lasciva salamandra”, o que possibilita a distancia de uma visão maniqueísta sobre a personagem e a aproxima de uma personagem mais humana,realista e menos romântica.
Apesar de a personagem ter traços distintos das mulheres de sua época, já que é mostrada também como uma mulher autônoma e inteligente que tem domínio sobre os seus bens, para a sociedade Aurélia mantinha os hábitos burgueses e um perfil convencional plausível à classe burguesa. Realizava piquenique com as amigas, saia para comprar vestidos, passeava de charrete com as moças da alta sociedade, entre outras coisas.
Aurélia é conhecida por ter um encanto arrebatador, como também uma fortuna invejada pela corte, porém o que promove essa sua transição entre amor e vingança, foi o desprezo que teve de Fernando quando a mesma era pobre.
A primeira parte da narrativa mostra a personagem no presente, já na segunda parte somos apresentados ao seu passado e começamos a entender a dualidade dos sentimentos da personagem entre o amor e a vingança, o desejo de querer amar, porém orgulhosamente ter de desprezar.
A origem pobre da personagem e o desprezo de seu amor devido as suas condições sociais despertam na mesma um desejo de vingança, um desejo de ascender socialmente, ser desejada por todos, invejada por todos, e vingar-se através da compra do matrimônio, mesmo ainda amando Fernando. Apesar de Alencar mostrar na obra a ousadia da protagonista feminina, a obra acaba restabelecendo uma estrutura familiar patriarcal.
As características da personagem Fernando Seixas, um moço de fisionomia nobre, porém pobre, que deseja ascender socialmente através do casamento, e descrita pelo autor de forma bastante minuciosa:
“Tem uma fisionomia tão nobre, quanto sedutora; belos traços,tez finíssima, cuja alvura realça a macia barba castanha.Os olhos rasgados e luminosos às vezes coalham-se em um enlevo de ternura, mas natural e estreme de afetação, que há de torná-los irresistíveis quando o amor os acende. A boca revestida por um bigode elegante, mostra o seu molde gracioso, sem contudo perder a expressão grave e sóbria, que deve ter o órgão da palavra viril.” (ALENCAR, 1999, pág. 36).
A conduta de Seixas ao desprezar o amor de Aurélia quando descobre que a mesma é pobre, é explicada pelos costumes e hábitos da sociedade burguesa, que auxiliou a corrompê-lo, por isso o autor da Obra não coloca a personagem Fernando como vilão da história.
Fernando Seixas é um personagem resultante do desejo de participar destes restritos círculos sociais burgueses, tanto que se veste de forma a valorizar o produto, buscando ascender-se sob a custa do matrimônio.
Este personagem volta aos braços de Aurélia sem saber através do dote que lhe é oferecido pelo tio de Aurélia, o dinheiro sempre está à frente das suas escolhas, porém quando ele descobre a verdade, tanto o orgulho, quanto o sentimento diante da autossuficiência de Aurélia e o amor que sempre manteve por ela faz com que ele tome a atitude de paga-lá como também de pedir o seu amor de volta.  

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Análise do título "Luciola" de José de Alencar


Introdução
O texto abaixo é sobre a análise das personagens de “Lucíola” de José de Alencar. A edição analisada foi da reimpressão de janeiro de 2015 da Coleção L&PM POCKET de Porto Alegre, RS. O nome completo do autor é José Martiniano de Alencar, 1829-1877.

ANÁLISE DAS PERSONAGENS DA OBRA
“LUCIOLA” DE José de Alencar.

1         Lúcia/Maria da Glória: Lúcia é uma mulher de 19 anos, é cortesã, e é uma das mais ricas da cidade. É extremamente bonita e elegante, sendo cobiçada pelos homens e invejada pelas mulheres. Pela sua profissão, é muito mal falada pela cidade, assim, as pessoas julgam a "casca", e então as pessoas não sabem quem ela realmente é por dentro. Tem os cabelos anelados escuros e grandes olhos negros. É muito profunda e reflexiva, tendo assim grande complexidade psicológica.

Trecho da fala de Maria da Glória:

“ ... Depois de algumas voltas descobrimos ao longe a ondulação do seu vestido, e formos encontra-la, retirada a um canto, distribuindo algumas pequenas moedas de prata à multidão de pobres que a cercava. Voltou-se confusa ouvindo Sá pronunciar o seu nome:
- Lúcia!
- Não há modos de livrar-se uma pessoa dessa gente! São de uma impertinência! – disse ela, mostrando os pobres e esquivando-se aos seus agradecimentos.
Feita a apresentação no tom desdenhoso e altivo com que um moço distinto se dirige a essas sultanas do ouro, e trocadas algumas palavras triviais, meu amigo perguntou-lhe:
- Vieste só?
- Em corpo e alma.
- E não tens companhia para a volta?
Ela fez um gesto negativo.
- Nesse caso ofereço-te a minha, ou antes a nossa.
- Em qualquer outra ocasião aceitaria com muito prazer; hoje não posso. ...”  (ALENCAR. 1999, p. 16)

2         Paulo: Paulo é um jovem, pernambucano, de 25 anos recém-chegado no Rio de Janeiro. Não tem muito dinheiro, por estar ingressando na vida profissional, e acha isso algo ruim por estar se relacionando com Lúcia, que é muito rica. É um homem ingênuo e que, em algumas passagens do livro, age sem pensar.


Trecho da fala de Paulo:

"- Supunha que fosse apenas uma dessas moças fáceis, a quem contudo é preciso fazer a corte por algum tempo.
- O tempo de abrir a carteira. Andas no mundo da lua, Paulo. Queres saber como se faz a corte à Lúcia? ... Dando-lhe uma pulseira de brilhantes, ou abrindo-lhe um crédito no Wallerstein.

- Não é sem razão que te pergunto isso; encontrei-a há dias, e a sua conversa, os seus modos, pareceram-me tão sérios!"  (ALENCAR. 1999, p. 25)


3         Sá: Grande amigo de Paulo, tem 30 anos. Mora há cerca de 7 ou 8 anos no Rio de Janeiro. É ele que apresente Lúcia a Paulo. Fala mal de Lúcia, o que desagrada Paulo.


Trecho da fala de Sá:

“Encontrei-me à tarde com Sá no Hotel da Europa, onde costumava jantar. Estava ainda muito viva a lembrança do que me sucedera naquela manhã para não aproveitar o ocasião de falar-lhe a respeito, tendo o cuidado de ocultar o papel que havia representado na pequena comédia.
- Tens visto a Lúcia? – perguntei-lhe.
- Não; há muito tempo que não a encontro.
- Tu a conheces bem, Sá?
- Ora! Intimamente!
- Tens toda a certeza de que ela seja o que me disseste na Glória?
- E essa! Pois duvidas? ... Vá à casa dela; já te apresentei.
- Supunha que fosse apenas uma dessas moças fáceis, a quem contudo é preciso fazer a corte por algum tempo.  (ALENCAR. 1999, p. 24 e 25)


- O tempo de abrir a carteira. Andas no mundo da lua, Paulo. Queres saber como se faz a corte à Lúcia? ... Dando-lhe uma pulseira de brilhantes, ou abrindo-lhe um crédito no Wallerstein.”  (ALENCAR. 1999, p. 25)





4         Ana: irmã mais nova de Lúcia, de apenas 12 anos. É muito parecida com sua irmã mais velha, também possui os cabelos anelados, só que loiros. No final do livro casa-se.


Trecho da fala de Ana:



5       Laura e Nina: Prostitutas assim como Lúcia. Estavam presentes no jantar na casa de Sá, e apresentam inveja da beleza de Lúcia. Lúcia ajuda Laura uma vez, pagando seu aluguel. Paulo marca um encontro com Nina para fazer ciúmes em Lúcia, mas ela não vai.


Trecho da fala de Laura:

“ ...
- Hei de lembrar-me sempre que, sem ti, não teria amanhã onde dormir. É pequeno serviço?
- Não vês que me estás aborrecendo, Laura! – disse Lúcia, batendo o pé com impaciência.
- Está bem, não quero que te arrependas do benefício.
- Certamente me farás arrepender. Sabes que eu não gosto que me contrariem. Adeus.
Laura fitou nela um olhar surpreso, no qual passou rapidamente a sombra de um ressentimento; mas acabou rindo-se, e saiu depois de dizer estas palavras:
- Tu me expulsas de tua casa? Não tenho do direito de ofender: acabas de pagar o aluguel da minha.

A porta fechada por Lúcia bateu com tanta força que as vidraças das janelas estremeceram.” (ALENCAR. 1999, p. 72)



Trecho da fala de Nina:

“ ...
E essa pobre moça, a Nina, inocente da minha loucura, que talvez por meu respeito perdera o seu amante? Era primeira vez, desde que a deixara, que me recordava dela. Devia-lhe uma desculpa; e, como não tinha outra coisa que fazer, aproveitei esse pretexto para sair.

Pensava, chegando à casa de Nina, encontrar um rosto fechado, um momo despeitado, e um bom-dia atirado da ponta de um beiço desdenhoso. Qual não foi portanto a minha surpresa vendo-a precipitar –se para mim, abraçar-me com ímpeto, e atirar-me de repente pela testa e pelo rosto uma chuva de carícias que me zoou.

Afinal consegui desprender-me dos braços que me enlaçavam; ia pedir uma explicação, quando Nina atalhou-me:

- Estou muito zangada com o senhor! – disse com ar que exprimia inteiramente o contrário. – Fazer-me esperar até não sei que horas!
- Confesso que cometi uma falta; mas há de me desculpar.
- Ah! Cuida que a pulseira que me mandou paga o prazer de sua companhia! Enganou-se! ...”(ALENCAR. 1999, p, 100 e 101)






5         Cunha: já teve uma relação extra conjugal com Lúcia, que o deixou por ver sua mulher muito triste e pensativa. Assim como Sá, fala muito mal de Lúcia.


Trecho da fala de Cunha:

“ ... Lúcia, como vê, parecia adivinhar o que me tinham dito o Cunha e o Sá para desmenti-los completamente. Entretanto, quando eu devia admirar a nobreza dessa lama, quando a mulher que acusavam de cúpida e avara afastava delicadamente uma questão mesquinha, entregando posição ignorava, o meu orgulho me inspirava uma sórdida e estúpida lembrança.” (ALENCAR. 1999, p 75)

6         Couto: velho homem galanteador. Foi ele que se aproveitou da inocência e necessidade de Lúcia quando esta tinha apenas 14 anos.


Trecho da fala de Couto:



7         Rochinha: rapaz de 17 anos que possui velhice precoce por beber demais.


Trecho da fala de Rochinha:



8         Jesuína: mulher que recolhe Lúcia quando ela é expulsa de casa aos 14 anos, e que finge ser sua enfermeira.


Trecho da fala de Jesuína:



9         Jacinto: homem de 45 anos que vive da prostituição de mulheres pobres. Paulo achava que ele e Lúcia eram amantes, o que não era verdade.


Trecho da fala de Jacinto:



          
São Paulo, 27 de novembro de 2015;
Literatura Brasileira II - Prof. Vinicius
Daisy de Souza Dória
Maurício França
Erica Arib


Memórias de um sargento de milícias





    Manuel Antônio de Almeida nasceu, no Rio de Janeiro em 1831, filho de portugueses, Antônio de Almeida e Josefina Maria de Almeida. Concluiu, em 1855, o curso de medicina, entretanto nunca exerceu. Seu romance, Memórias de um Sargento de Milícias, foi publicado, inicialmente, no suplemento literário "A Pacotilha", e onde saíram, em folhetins, sob pseudônimo de “Um brasileiro”, entre 1852 e 1853 (a primeira edição do romance, em livro, aparece em 1854 – 1855, em dois volumes, permanecendo o autor anônimo). 
 






 
    A obra, Memórias de um sargento de milícias, narra a vida do Leonardo, do nascimento até o momento que se torna (Sargento). Malandrinho desde pequeno, filho de um beliscão e uma pisadela, poucas pessoas gostavam dele, e esses sempre ajudara-o. O leitor que se debruçar diante da obra, irá se divertir com as peripécias do Leonardinho e com todos que estão em torno dele. Obra escrita em linguagem coloquial da época, mas que mesmo depois de tanto tempo, o leitor não encontrará dificuldades na leitura quanto ao vocabulário.
   Depois de conhecer um pouco sobre os personagens, aproveite para saber ainda mais sobre esse típico malandro em: Memórias de um Sargento de Milícias  





   Para o leitor já ir entrando no clima da obra, sugerimos que ouça:Malandro é malandro, mané é mané.


“A música retrata um típico malandro carioca, do século XX, indivíduo elegante, sapato duas cores, chapéu-panamá, cheio de ginga, malícia e esperteza. O malandro para se impor socialmente, não precisa de confrontações físicas, prefere fazer uso de sua malícia e astúcia”.









Personagens “Memórias de um Sargento de Milícias”





Leonardo – Pataca (pai): O mais antigo dos meirinhos que viviam nesse tempo. A velhice tinha-o tornado moleirão e lento; Leonardo – Pataca quando mais jovem, em sua viagem de navio Lisboa/ Rio de Janeiro se envolverá amorosamente com Maria da hortaliça, e entre beliscões e pisadelas de romance, e passados dois meses foram morar juntos, e mais sete meses nascerá Leonardo (o anti-herói desta história). Juntados Leonardo desconfiava da infidelidade da esposa, e depois de descobrir traições, e Maria o deixar, vai embora deixando o filho para traz. Foge de uma saloia e cai nos “encantos” de uma cigana, homem por vezes vingativo, e digamos, um pouco interesseiro.  

Maria da hortaliça:Quitandeira das praças de Lisboa, camponesa rechonchuda e bonitona. Maria da hortaliça se envolve com Leonardo – Pataca na viagem de navio, e com ele teve um filho, Leonardo. Casada, ou melhor, juntada com Leonardo – Pataca tem seus relacionamentos fora do casamento, descobertos esses relacionamentos foge com um capitão de navio, deixando filho e marido para traz.  

Leonardo (filho): Filho de uma pisadela e beliscão, traquina e guloso, desde pequeno já era endiabrado, “podre” Leonardo, era odiado pela vizinhança, aprontava muito com eles. Abusava dos carinhos que recebia de seu padrinho, o qual criou devido seus pais o abandonarem. Típico malandro, fazia de tudo para “levar uma vida boa”, não se inclinava nem para clérigo muito menos para homem das letras. Fugia de qualquer obrigação, apaixona-se por Luizinha, filha de D. Maria, depois, encanta-se por Vidinha, vai preso pela segunda vez, quando enganou o Major Vidigal, na busca por um meliante. Leonardo, herdara características do pai, apaixonava-se muito fácil.

Dona Maria - Madrinha/ parteira/ comadre:Mulher baixa, excessivamente gorda, bonachona, ingênua ou tola até certo ponto, e finória até outro; vivia do ofício de parteira, que adotara por curiosidade, e benzia de quebranto, típica “carola”, não perdia uma missa, sabia de tudo que era relacionado à igreja; todos a conheciam por ser muito beata e pela mais insistente papa – missa da cidade. Madrinha de Leonardo, devido a suas ocupações, de princípio, não tinha muitas notícias de seu afilhado. Quando o seu compadre vai preso é ela que intercede por ele. Apesar de sua ausência, quando ele era pequeno, ela protegia-o em tudo, inclusive no plano para tirar o José Manuel do caminho.

Padrinho/ barbeiro: Homem solitário, tinha hábito de espiar a via alheia, costume antigo. Quando o assunto era seu afilhado, demonstrava muito otimismo, acredita que o menino terá um bom futuro e que irá provar isso para todos, sempre defendia-o, mesmo quando as pessoas diziam o motivo de suas traquinagens, ele não aceitava, e por vezes, até achava graça. O barbeiro fora criado por um homem que tinha a mesma profissão que a sua, aliás, foi o seu criador que ensinou o seu ofício e também fez dele letrado. Quando mais jovem, foi barbeiro e sangrador em um navio, e estando ele por lá, conheceu o capitão, que pediu para entregar bens de valor para a sua filha, com a morte do capitão, o barbeiro “herda” a fortuna, essa que ele deixara para o seu afilhado no testamento.

Major Vidigal: Temido e destemido, era o rei absoluto, o árbitro supremo de tudo que dizia respeito a esse ramo de administração, era o juiz que julgava e distribuía a pena, e ao mesmo tempo o guarda que dava caça aos criminosos; nas causas da sua imensa alçada não haviam testemunhas, nem provas, nem razões, nem processo; ele resumia tudo em si. M. Vidigal conhecerá Leonardo e levará ele preso, pois não admitia esse costume malandro que o jovem tinha e com isso ajudará estabelece-lo em um cargo militar, na troca de “favores” que obtém com Maria – Regalada, integra, posteriormente, Leonardo em Sargento de Milícias.

Dona Maria: Mulher velha, rica, muito gorda, de bom coração, ajudava aos pobres, entendia muito de termos jurídicos, quando o assunto era esse, não havia procurador que a enganasse; devia ter sido muito formosa no seu tempo, porém dessa formosura só lhe restavam a rosada das faces e alvura dos dentes; Dona Maria se simpatizara com Leonardo, e o ajudara, é também tia de Luisinha, a qual ganha a guarda depois da morte dos pais.

LuisinhaMoça alta, magra, pálida, andava com o queixo enterrado no peito, trazia as pálpebras sempre baixas, e olhava a furto; tinha os braços finos e compridos; o cabelo, cortado, dava – lhe apenas até o pescoço, e como andava mal penteada e trazia a cabeça sempre baixa, uma grande porção lhe caía sobre a testa e olhos, como uma viseira. Luisinha sobrinha de D. Maria, se apaixona por Leonardo, e depois dele se declarar para ela, seu mundo interior mudou de estreito e triste, agora largo e iluminado, mas por vontade da tia casa – se com José Manuel, o qual não foi um bom marido, tempo depois morre, e Luisinha viúva se (re)encontra com Leonardo, agora já mudada (Luisinha uma moça crescida, elegante, mesmo olhos e cabelos pretos, tendo perdido todo aquele acanhamento físico e estranheza de outrora) casa – se com Leonardo.
José ManuelConhecido de Dona Maria, homem de pouco mais ou menos trinta e cinco anos de idade, magro, narigudo, de olhar vivo e penetrante, homem astuto, tinha o hábito de mentir, falar mal da vida alheia, não era querido por Leonardo e nem pelo barbeiro, pois o mesmo tinha interesses na Luisinha, sofre acusação por parte da madrinha do Leonardo, estratégia para afastá-lo da jovem. Seu real interesse era por causa da herança que a jovem viria a herdade de sua tia; casa – se com Luisinha, mas morre deixando-a viúva.   


Vidinha: Mulata de 18 a 20 anos, de altura regular, ombros largos, peito alteado, cintura fina e pés pequeninos; tinha os olhos muito pretos e muito vivos, os lábios grossos e úmidos, dentes alvíssimos, a fala era um pouco descansada, doce e afinada. Vidinha tem um envolvimento amoroso com Leonardo por um período.

Teotônio: Vagabundo, bicheiro, tinha reputação de homem divertido, e não havia festa de qualquer gênero para a qual não fosse convidado. Tocava viola e cantava muito bem modinhas, dançava o fado com grande perfeição, falava a língua de negro, e nela cantava admiradamente, fingia – se aleijado de qualquer parte do corpo com muita naturalidade. Teotônio vagabundo “bandido” perseguido por M. Vidigal, mas o major não conseguirá, pois Teotônio terá a ajuda de Leonardo.      

Maria – RegaladaMulher de meia idade, mas fora no seu tempo de mocidade era formosa e robusta, era de um gênio sobremaneira folgazão, vivia em contínua alegria, ria- se de tudo, e de cada vez que se ria fazia – o por muito tempo e com muito gosto (daí é que vinha o apelido – regalada). Maria – Regalada teve um envolvimento amoroso com M. Vidigal outrora.

Chiquinha: Filha de D. Maria/ madrinha/ comadre, e segunda esposa de Leonardo – Pataca.

Tomás da Sé: Coroinha da igreja, amigo de infância de Leonardo, endiabrado e malandro como o amigo.

Chico Juca: Homem de fama e temível, valentão, amigo de Leonardo – Pataca. Seu verdadeiro nome era Francisco, e por isso chamaram – no a princípio – Chico –; porém tendo acontecido que conseguisse ele pelo seu braço lançar por terra do trono da valentia a um companheiro que era seu gênero a maior reputação do tempo, e a quem chamavam – Juca – juntaram este apelido ao seu, como honra pela vitória.

Vizinha:Morava próximo ao Leonardo, mulher valentona, viúva, não tinha papas na língua, intrometia-se na vida alheia, dizia que o garoto não teria um bom final, já que era muito peralta. Vivia por fazer reclamações do garoto e questionava o barbeiro sobre as “evoluções” do seu afilhado. Dizia que se o garoto tinha esse comportamento era devido a liberdade que davam para ele. Sofreu vingança de Leonardo, pois ela zombava quando via-o trajado de sacristão. 

Tenente-coronel: Homem bom, porém tinha muitos pecados, da carne, deixou um filho em Lisboa, julgava não ser uma boa ideia casar seu filho como uma mulher que vendia frutas. Expressa vontade de ajudar Maria para liberar o Leonardo-pataca, morava em um sobrado, casa de gente rica, porém uma casa com aspecto triste. Pede pela soltura de Leonardo – Pataca, e oferece ajuda ao Leonardo (filho).


Sacristão da séPai do Tomás, senhor de terceira idade, uma figura menos má, filho da ilha terceira, formou-se em Coimbra, por fora um verdadeiro São Francisco de austeridade católica, por dentro refinado Sardanapalo, que podia por si só fornecer a Bocage assunto para um poema inteiro; era pregador que buscava sempre por assunto a honestidade e a pureza corporal em todo o sentido; porém interiormente era sensual como um sectário de Mafoma. Mantinha “relações” com a Cigana. Amava muito por sermão, pois o povo se abalava com a sua voz, e aguardava pelo sermão o ano inteiro. Depois que o Leonardo entrou para trabalhar na igreja tudo deu errado, inclusive ele quase veio a perder seu sermão, o jovem aprontou com ele também, informava o horário errado da leitura, consequentemente, fez o Leonardo ser despedido.

Italiano: tinha uma voz aflautada e meiga, se ofereceu para ler o sermão, na ausência do padre, mas é afastado quando o mesmo retorna, murmura despeitado por ter que deixar no meio o sermão.



Mestre: Tinha paixão por pássaros, baixo, magro, de rosto fino, calvo, usava óculos.  No momento que seus alunos não iam bem, tinha o costume de dar alguns “bolos”. Quando conheceu Leonardo, mostrou não gostar muito dele.



     A influência do pícaro espanhol na telenovela e na literatura brasileira.

            
   Uma analogia que podemos fazer com a obra Memórias de um Sargento de Milícias e a telenovela mexicana A Usurpadora de 1998, chegando ao Brasil somente um ano depois, 1999. A trama principal está na troca de duas mulheres – Paulina e Paola Bracho, iguais na aparência, mas diferentes na personalidade e sentimentos.



  Mas, deixando essa trama, o que nos interessa é o personagem Willy Monteiro marido de Estefanie Bracho, tal como Leonardinho, estes tem o jeito malandro, mulherengo, e sempre querendo se dar bem. E tanto nessa telenovela (como em outras), há também em obras literárias em que retratam essa “dialética da malandragem”, como é o caso da obra A Vida de Lazarillo de Tormes, autoria desconhecida. 

                   
   Para efeitos de análise e para melhor compreensão, fizemos uma pequena comparação entre uma novela, uma obra literária ocidental e nossa obra brasileira, demonstrando que as características românticas, efeitos e concepções estão presentes em nossa cultura, independente de época, tradição ou cultura. (Para conhecer a obra, Lazarillo de Tormes, acesse: Lazarillo de Tormes - Bilíngue)
                                                                          


   Dica: O presente artigo versará sobre: a presença do pícaro espanhol na literatura Brasileira, a caracterização teórica do romance malandro e a concepção de Antônio Cândido sobre personagens pícaros e malandros. (A recriação do pícaro na literatura brasileira: O personagem malandro.)


Referência bibliográfica:

ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um Sargento de Milícias. S/ed. São Paulo: Sol, s/ano.

Memórias de um Sargento de Milícias. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1969 acessado: 28/11/2015.


ANÔNIMO. Lazarilho de Tormes. 2.ed. São Paulo: 34.

Lazarilho de Tormes. disponível em: https://portugues.free-ebooks.net/ebook/Lazarillo-de-Tormes/pdf/view acessado: 28/11/2015.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 49.ed. São Paulo: Cultrix, 2013.

BOTOSO, Almir. A recriação do pícaro na literatura brasileira: O personagem malandro. Letrônica. Rio Grande do Sul, v.4. n.1, p.122-135, jullho 2011.


Malandro é malandro, mané é mané disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mIyELbDl58k acessado: 28/11/2015.